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O pai de todos
Matérias
Autor:
Luiz A. Chabausus
Fonte:
Placar
Data:
1978
Comentário:
Perfil de Pai Santana para a revista Placar

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Uma mistura de misticismo e ciência o tornou um dos mais famosos massagistas do nosso futebol: o homem que já cuidou de ministros e até de uma miss Brasil.

Já se tornou um ritual. Quando os jogadores estão concentrados em São Januário, antes de se dirigirem a seus quartos, passam rapidamente por uma pequena saleta em forma de losango que não mede mais de dez metros quadrados. Ali, segundo alguns, decide-se à sorte de muitas partidas, curam-se rupturas de ligamentos e apressa-se o pagamento de bichos. É a saleta do gongá Pai Santana.

 

O jornalista Dácio de Almeida conta, por exemplo, que o centroavante Valfrido, antes de começar qualquer tratamento de contusão à base de massagens, pedia que Pai Santana desse uma rezadinha. No Vasco, todo mundo sabe que, antes da conquista do Brasileiro de 1974, o técnico Mário Travaglini permitia que um grupo comandado pelo volante Alcir deixasse a concentração, à noite, para frequentar as sessões de uma certa tia dotada de pode­res extra-sensoriais. Uma atitude, aliás, que contrariava toda sua formação de descendente de italianos e aluno do cató­lico Colégio Arquidiocesano.

 

Não se sabe exatamente como é o relacionamento entre Pai Santana e o atual técnico Orlando Fantoni — um católico fervoroso que, segundo dizem, cita Deus em três de cada quatro palavras que diz.

 

— Não tem problema — diz o Pai. O titio fica na dele e eu na minha.

 

Pai Santana é Eduardo Santana, 43 anos completados na quarta-feira da semana passada. Massagista do Vasco nos últimos quatro anos, ostenta com orgu­lho alguns dados preciosos em um currículo que mandou imprimir. Coisas do tipo: em 1966, foi massagista da Miss Brasil. Ou seja: preparou-a para as cami­nhadas de maio e vestido "longuinho" pela passarela do Maracanãzinho.

 

Em 1973, massageou ministros; em 1975, altas autoridades militares. Como se vê, muita gente importante já passou pelas hábeis mãos do Pai.

 

Mas é em seu santuário que ele se sente mais à vontade para "trabalhar". Diante das imagens de um preto velho, de Pai Joaquim, Santo António, Xangô e Joana D'Arc, distribuídas num altar de quatro andares, ao lado de duas pedras (uma trazida de Salvador, outra de Porto Velho), Santana reza, acende velas e pede pelas vitórias do time. Se suas orações dão resultado, é difícil responder. Mas desde que voltou para o Vasco, em fins de 1973, ele vem participando da conquista de títulos e mais títulos.

 

Em 1974, foi campeão brasileiro e vice carioca; em 1975, depois de ganhar o ter­ceiro turno do campeonato carioca, aca­bou em terceiro lugar; em 1976 e 1977, foi bicampeão da Taça Guanabara e campeão carioca da última temporada.

 

Eduardo Santana é mineiro de Andrelândia. Com apenas oito meses, seus pais — já falecidos — o levaram para viver em Salvador, Bahia.

E foi lá, vivendo na Cidade Baixa, nas imediações do antigo Mercado Modelo, que ele se iniciou no candomblé. Aliás, seu pai, Arnoldo, era um frequentador assíduo dos terreiros baianos. Com sete anos, veio para o Rio e sua mãe internou-o na antiga Escola XV, em Quintino, onde formou-se mecânico de refrigeração.

 

Com 18 anos, começou a treinar boxe sob a orientação de Santa Rosa. Pouco depois, tornava-se campeão carioca e bra­sileiro na categoria meio-médio ligeiro.

 

— Tinha muita gente boa entre os ama­dores naquela época. Chocolate, Adão, Assis, Bento Mariano. Entre os profissio­nais, destacavam-se Paulo de Jesus, Mil­ton Rosa, os irmãos Jorge e Paulo Sacomã.

 

Nessa época, até 1954, Santana pesava somente 68 quilos, contra os 114 de hoje. Naquele mesmo ano, terminou o curso de Educação Física da Escola de Educação Física do Exército.

 

Dois anos depois, entrou para o fute­bol, levado por Gentil Cardoso.

 

O traidor

 

Lá se foi Pai Santana, levando consigo toda sua fé. Fé que, para ele, justifica os títulos que conquistou. Em 1957, foi cam­peão pelo Botafogo, com João Saldanha de técnico. Em 1959, campeão brasileiro pelo Bahia. Já naquele ano, convidado por João Havelange, fazia parte do quadro de massagistas da CBD. Em 1961, os médi­cos do Flamengo entraram em greve e ele foi trabalhar no clube junto com Hilton Gosling. Depois, Sílvio Pirilo convocou-o para acompanhar a Seleção Paulista que disputou e ganhou o sul-americano de acesso, em Lima, Peru.

 

— Só não fui à Copa do Chile porque seu Feola adoeceu e fiquei cuidando dele.

 

Aí, Santana já era famoso — a ponto de receber um convite para ser um dos mas­sagistas da equipe norte-americana de atletismo. Iria morar em Chicago, come­çaria ganhando 700 dólares mensais, mais casa, carro e comida. Mas não foi, porque João Havelange não deixou.

 

— Ele disse que eu iria me tornar o mais famoso massagista deste país.

 

Mas começaram a surgir alguns proble­mas que atrapalharam um pouco todos esses planos.

 

— Vou dizer para vocês um negócio que nunca disse. Havia na CBD um homem que queria derrubar o Havelange, um homem que o estava traindo. Pois bem: um dia, eu estava no clube Piraquê, na Lagoa, quando o Rodolfo Hermany, que dava aulas de judô, me disse que um fula­no queria trair o Havelange. Eu não poderia admitir aquilo e pensei em falar com ele. No fim, decidi bloquear a história.

 

O resto parece novela policial. Santana marcou um encontro com o "traidor" e disse que não admitia que Havelange fos­se traído. Desde então, esse homem vetou seu nome para todas as seleções que se formaram a partir de 1956. O traidor seria Mozart Di Giorgio, atual superin­tendente da CBD.

 

Santana não foi para a Copa de 1966. Melhor pra ele não ter participado daque­le vexame. Três anos depois, foi campeão carioca pelo Fluminense. Um dia, estava na Urca quando João Silva foi buscá-lo em nome do Vasco.

 

— Mas antes quero dizer que foi o Pau­lo Amaral quem me derrubou no Flumi­nense. Azar dele, pois fiz um "trabalho" com a cabocla Jurema e hoje ele mora fora do Brasil porque não conseguiu sucesso aqui.

 

Massagista formado

 

Ninguém nega que Santana é o mais famoso massagista do futebol brasileiro. Não fosse assim, o empresário Francisco Xavier, dono de uma empresa construto­ra que domina o mercado imobiliário da zona norte carioca, jamais o teria contra­tado como relações-públicas da empresa. Desta forma, invariavelmente, ele é visto com a marca da empresa estampada em camisetas de malha ou nas elegantes casacas com que entra em campo.

 

Existe até o clube Pai Santana: crianças de todo o país escrevem para o Vasco e ele envia diplomas a seus fãs mirins. Todo esse sucesso certamente lhe rendeu e ren­de um bom dinheiro. Hoje, Santana mora numa casa de dois andares nas imedia­ções de São Januário.

 

Ele fez curso de sargentos na Escola de Educação Física do Exército. E, sempre que viaja, procura conversar com outros massagistas, insistindo para que todos façam cursos oficiais. Segundo ele, é uma forma de valorizar sua profissão.

 

— Quando estive no Recife, convoquei uma reunião no Hospital Geral. Para minha surpresa, apenas um dos presentes era massagista formado. Meus colegas precisam entender que é importante fazer o curso. Do contrário, não saberão nem aplicar uma injeção e acabarão entrando no esquema do jogador. Ou seja: jogando o negócio fora e dizendo ao médico que está tudo bem. É preciso haver respeito.

 

Verdade, Pai. E saravá pro senhor!   

 

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