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Agora a gente sabe que ele se chama Ramalho. O nome dele todo já aparece nos jornais e há locutores que o pronunciam com a ênfase de um anúncio; Domingos do Espírito Santo Ramalho, a televisão o levou de casa em casa. É raro hoje em dia ver-se um torcedor. Só mesmo os que a gente conhece de outros tempos. O Maracanã teve isso de ruim: acabou com a figura humana. Olha-se e não se vê ninguém: o que se vê é a multidão, compacta nos grandes jogos, e nos pequenos jogos os farrapos dela, espalhados pelos degraus da grande arquibancada. O torcedor se perde e, perdido, se agarra à multidão, adere-se a ela como marisco em rochedo. Para gritar ele tem que unir a própria voz à dos outros, senão ninguém escuta. Só se escuta mesmo a voz do Ramalho, que não é a dele, que é a do clarim de talo de mamão, aliás de mamona. Talvez isso explique o que é quase insólito: o Maracanã, que aniquilou o torcedor como indivíduo, que o pluralizou, tornando-o em multidão, foi, que revelou o Ramalho aos olhos de todos nós, Ouvia-se um clarim, vibrante nos acordes de marcha da Aída, ali, acolá: era o Ramalho.
E o mais importante: era o Ramalho só, O Ramalho não se confundia com a torcida organizada, com a charanga, com a massa. Mesmo nos maiores dias do estádio, nos Vasco x Flamengo, quando não cabia mais ninguém, o Ramalho arranjava um jeito para andar de um lado para o outro. Porque o clarim de talo de mamão, digo, mamona, tinha de ser ouvido nos quatro cantos do Maracanã. Nos quatro é exagero, e até mesmo nos três não está certo, O Maracanã dividiu as torcidas, A do Vasco, por exemplo, fica à direita, a do Flamengo à esquerda. Quem é do Vasco vai para a direita, que, se for para a esquerda, o mínimo que leva é uma saraivada de laranjas chupadas. Não sendo tempo de laranja, bolas de jornais fazem as vezes delas. O Ramalho sabe que a esquerda é do Flamengo: lá não aparece de clarim de talo de mamão, sempre digo mamão quando é mamona. Quebravam-lhe logo o clarim do talo de mamão que é de mamona, Ele leva sempre dois. Um pode quebrar e é preciso que o grito do Ramalho alcance os ouvidos de todos os que lutam e sofrem pelo Vasco, dando-lhes novas forças.
Assim as idas e vindas do Ramalho têm de ser mesmo pela direita e só pela direita. Mas ele toca perto, toca mais longe, e mais longe ainda e ainda mais longe. Alcança as fronteiras indevassáveis da torcida do outro clube e volta. A gente ouve o Ramalho se aproximar quase como se ouvisse passos, Assim mesmo custaram a descobri-lo. Era que todos se recusavam a admitir o que parecia inconcebível no Maracanã: o reconhecimento de uma figura humana, uma como ilha deserta naquele mar de gente, mas o clarim de talo de mamão, que os entendidos chamam de mamona, era a única voz isolada que se ouvia. As outras se misturavam no som rouco, subterrâneo, da multidão. Não houve outro jeito: o Ramalho se impôs. E se falou no clarim do talo de mamão, que só se faz de mamona, não sei por quê, do Ramalho. Primeiro era o clarim só. Depois o clarim, como não podia deixar de ser, não bastava, e foi o clarim do Ramalho, vendo o Ramalho é difícil reconhecê-lo, Pelo menos a primeira vez: depois, não, a gente se acostuma, lembrando-se que o Ramalho é assim mesmo. Mas cada um de nós, ouvindo as clarinadas do Ramalho, imaginava-o diferente, talvez nem o imaginássemos. Sabíamos, sim, que o homem do clarim de talo de mamão, sempre digo mamão e não mamona, era o Ramalho, O nome, inclusive, não se prestava muito a qualquer ideia que pudéssemos fazer do Ramalho. Que Ramalho? Aí é que estava. Ouvíamos um nome, Ramalho, depois de termos ouvido as clarinadas. E isso não nos ajudava em nada, pelo contrário. O nome até atrapalhava. Ramalho, como seria o Ramalho, era melhor não imaginar o Ramalho. Daí a surpresa, vendo-o. Aquele era o Ramalho. Mais diferente não podia ser, e quando ele abriu a boca saiu uma vozinha, não direi de menino, mas sumida, tímida, balbuciante, quase fina, Era uma voz que não parecia do Ramalho, A voz dele, a verdadeira, era a do clarim.
Mas o Ramalho era aquele e aquela a voz dele. Também de tanto tocar clarim num talo de mamão — e quem não sabe, se não é de mamona? — o Ramalho tinha de ficar sem voz. Mesmo gritando em uníssono, quer dizer, juntando voz com voz, apoiando a voz noutra voz, o que deve cansar menos, há torcedor que sai do Maracanã afônico. O Ramalho é o único que grita sozinho. A voz dele se não abafa, que não abafa, corta, como se fosse a gilete, o bramido do mar humano. Abre-lhe uma esteira de espuma, sulca-o feito a quilha de um navio. E aquilo se repete, Quando demora a gente olha para o lado direito, o da torcida do Vasco, como se tentasse ver a clarinada surgir. E às vezes, mesmo não a escutando, parece que a escutamos. É a nossa memória que substitui o clarim do Ramalho, que o faz tocar o clarim mesmo ausente. Foi o que se deu em dois matches do campeonato e logo dois grandes matches: o Vasco x Flamengo e o Vasco x América.
O Vasco perdeu um e empatou outro. Os jogadores, agora campeões da cidade, correram ao Calçada. Onde é que andava o Ramalho? O Calçada já conhecia o Ramalho: pagara-lhe um ano de sócio do Vasco da Gama. O Ramalho aparecera-lhe um dia para mostrar um memorandum do Vasco. Nesse memorandum, o Clube de Regatas Vasco da Gama comunicava, com o laconismo dos memoranda, ao sr, Domingos do Espírito Santo Ramalho que ele tinha sido eliminado do quadro social por falta de pagamento. Foi quando o Calçada soube que o Ramalho era sócio do Vasco. A verdade nua e crua é que o Ramalho não tinha posses para pagar as mensalidades do Vasco. Ele trabalhava no cais do porto, a família dele era grande, mulher e cinco filhos, seis bocas, com a dele sete. Todos os domingos ele tinha de ir ao Jardim Gramacho, lá em Caxias, para cortar os talos de mamão, ele disse mamão ou teria dito mamona?
O seu Calçada fizesse os cálculos. Ele ia ao Jardim Gramacho e voltava. Depois ia para o jogo. Mesmo se pagasse as mensalidades, tinha de comprar uma arquibancada. O lugar dele era na arquibancada. Se ele tocasse o clarim de talo de mamão, ou mamona, na social do Vasco ou nas cativas do Maracanã, que era onde ficavam os sócios em dia de grande jogo, não era a mesma coisa, com o que o Calçada concordou. Mas ele, embora não pudesse pagar as mensalidades, queria ser sócio do Vasco. Era Vasco e se não fosse sócio ia sentir-se diminuído. Não era para nada, era para ser sócio só e ter a carteirinha no bolso e quando estivesse com os amigos mostrá-la, sou sócio do Vasco, diante de tudo isso, o Calçada não teve dúvida: quitou o débito do Ramalho na tesouraria do Vasco e, para não se incomodar todos os meses, e para não correr o risco de se esquecer, e para não pensar mais nisso, pagou-lhe os meses que faltavam até dezembro.
Mas talvez fizesse o mesmo por outro, não por todos que desejassem ser sócios do Vasco, que então não havia dinheiro que chegasse. Ele sabia que o Ramalho era o torcedor do clarim de talo de mamão que escrevo em vez de mamona, ouvia-o também lá do túnel e se alegrava com a clarinada que era um grito do Vasco. Nunca lhe passou pela cabeça, porém, que o clarim de talo de mamão de mamona do Ramalho tivesse tanta importância. E eis que os jogadores vão a ele dizer que tinham sentido falta do Ramalho. O Ramalho deixara de ir a dois jogos, não tocara o clarim, na hora má eles, os jogadores, não tinham escutado a clarinada. No primeiro jogo nem se incomodaram muito, mas no segundo ligaram uma coisa a outra e ficaram esperando o incentivo que não veio, Seu Calçada, é preciso ver o que aconteceu com o Ramalho.
O Calçada, aí, com toda a razão se alarmou. Era preciso encontrar o Ramalho fosse onde fosse. O Ramalho não podia faltar a nenhum jogo do Vasco. Senão os jogadores iam ficar esperando pela clarinada, e se o Ramalho não viesse? O Calçada foi ao Pires, o Pires disse que fazia questão de falar pessoalmente com o Ramalho, O José Rodrigues pôs-se em campo para descobrir por onde andava o Ramalho. O Ramalho morara junto a São Januário, na chamada Barreira do Vasco, não morava mais. E indaga daqui, indaga dali, o Ramalho, onde é que se pode encontrar o Ramalho, ele trabalha no cais do porto, é estivador, morava na Barreira do Vasco, não mora mais, mudou-se para onde? Finalmente veio a preciosa informação: o Ramalho morava numa casinha em Bonsucesso. Era uma operação, não se sabia qual, mas uma operação.
E o Pires, o Calçada, o José Rodrigues foram a Bonsucesso, para visitar o Ramalho, avalie se a operação do Ramalho fosse melindrosa, se o Ramalho tivesse de ficar um tempão num leito de hospital, mesmo em casa, dava na mesma. Era preciso pôr o Ramalho de pé, já e já, pois no domingo o Vasco ia jogar. Com certeza o Ramalho fora mal operado. O Vasco ia dar-lhe todo o conforto, não olharia despesas, o Ramalho tinha de ficar bom o mais depressa possível. E o Cadillac do Pires pára na ruazinha de Bonsucesso, defronte a uma casa que era a modéstia em pessoa, lá morava o Ramalho. Bateram na porta e primeiro apareceram as crianças, em escadinha, o Pires se identificou como o presidente do Vasco, Mamãe, é o presidente do Vasco. E lá veio uma mulher lá de dentro, apressada e acanhada e orgulhosa.
O Ramalho não estava, tinha ido trabalhar. Mas não fez uma operação? Tinha feito, sim, uma operação na boca. O senhor sabe, ele toca naquele talo de mamão, é mamona, mas todos dizem mamão, e fez um calo na boca. Doía, ele ficou com medo que a dor não o deixasse tocar mais. O médico então achou que tinha de operar e ele operou. Já estava melhor. Mas pode tocar domingo? Ela achava que mesmo que não pudesse ele iria tocar. O senhor sabe, ele acha que dá sorte ao Vasco. Não achava, mas agora que ele não foi a dois jogos e o Vasco perdeu e empatou, ele acha. O Pires não disse que achava, nem o Calçada, nem o José Rodrigues. O Vasco, porém, fazia questão que nada faltasse ao Ramalho. O Vasco pagava a operação do Ramalho. E o Pires enfiou a mão no bolso, o Calçada fez o mesmo, só o José Rodrigues ficou olhando. Na volta, tranquila, confiante, para a cidade, o Calçada não se conteve; vou pagar outro ano de sócio do Vasco para o Ramalho. E o Pires disse que o Ramalho bem que merecia.
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