_______________________________________________________
Ademir Marques de Menezes é agora comentarista de TV. Eis um jogador que teve forças para descalçar as chuteiras a tempo. Eu ia dizer abandonar o futebol, o que não seria exato, pois Ademir de um certo modo continua no futebol. Apenas não jogará mais.
Poucos jogadores deixaram de jogar na hora. Era uma coisa que Domingos da Guia sempre disse que ia fazer e não fez. Quando chegou o momento, lhe faltou coragem. Porque é preciso coragem. Não se trata só da necessidade de jogar para viver. É que o jogador ama o futebol, ama o match, o campeonato, ama sobretudo a bola, que para ele foi talvez o primeiro brinquedo. Ou o primeiro desejo. Se fosse possível deixar de jogar, poucos jogadores ofereceriam o espetáculo triste da decadência. E o comum é verse o ídolo de ontem transformar aos poucos a glória em deboche.
Uns se afastam das plateias que os aplaudiam e idolizaram. Escondem-se numa cidade do interior, que ainda os toma pelo que eles foram. E vão descendo a ladeira. De quando em quando recebo um cartaz de anúncio de jogo de interior. E lá está, em letras enormes, o nome do jogador de que nunca mais ouvira falar. Para a cidade do interior, ele é o mesmo que fizera vibrar as multidões da capital. E o jogador exibe a glória passada. Viaja-a. É a única maneira de fugir do anonimato do esquecimento, o mais terrível de todos. Realmente, não há nada mais terrível do que a ex-celebridade. Por isso o jogador de futebol que não larga as chuteiras a tempo, foge. Fica feito um judeu errante do futebol.
Como as mariposas, ele ainda procura a luz, o calor das palmas. Mas o amor dele pelo futebol é maior do que a vergonha, do desrespeito de si mesmo. Às vezes a gente passa numa pelada e descobre, entre os que correm atrás da bola, velho, gasto, ridículo, um ídolo passado. Há sempre um clubezinho para acolhê-lo, para agasalhá-lo. Sempre me lembram, esses jogadores que tiveram dias de glória, os anões dos jardins de antigamente. Todo jardim que se prezava tinha um anão. Tinha outras coisas, mas o anão se destacava, quem sabe se porque era personagem de uma história, um conto de fadas. Hoje, para encontrar um anão de jardim, a gente tem que ir para o subúrbio. Já esteve mais perto, vai para mais longe, para jardins ainda mais humildes.
Quantas coisas para se conseguir só muito depois? Foi a tristeza que se apossou do velho Braga quando, vinte anos depois, a Sonja Henie veio patinar no Maracanãzinho. Se fosse há vinte anos atrás quanto não daria o velho Braga para vê-la? E Sonja Henie patinava como antes. Apenas não era mais aquela menina que encantava o velho Braga nos 30, Então valia como um sonho. O cinema levava aquele sorriso, aquela candura a todas as platéias do mundo. Se ela não viesse aqui, o velho Braga a conservaria na memória, tal qual era, eterna, uma mulher e mais do que mulher, uma menina feito pássaro. Nem bonita ela era. Mas era a juventude, a alegria e era assim que o velho Braga queria vê-la, sempre, a vida toda.
E ei-la que vem, vinte anos depois, envelhecida, para entristecer o velho Braga. Quando ele a recordasse não a recordaria mais como fora e sim como era agora, uma mulher que lutava contra as rugas, que tinha de sorrir com cuidado, porque a alegria poderia envelhecê-la subitamente. Mas o Maracanãzinho se encheu, o que mostra que nem todos são como o velho Braga. Por isso é que muito jogador de futebol pode disfarçar, pode enganar-se, gozar a glória de segunda mão. Só que a decadência que chegou há de mostrar-se, depois, em qualquer canto, até mesmo numa pelada. Talvez isso explique a má vontade do torcedor pelo jogador do passado. Porque há até uma espécie de irritação do torcedor diante do ex-célebre.
Poucos, muito poucos, sabem não só largar as chuteiras como aceitar o futebol que continua. Geralmente o ex-jogador deprecia o futebol que se joga. E o torcedor ama é o futebol que se joga. Amando-o, tem de defendê-lo. Um Marcos de Mendonça inclusive, voltou mais de uma vez aos campos. Uma delas inteiramente fora de época. Houve quem perguntasse: aquele é que era o Marcos de Mendonça? Pois apesar de ter insistido, depois de haver abandonado o futebol em pleno apogeu, Marcos não olhou o futebol que continuava com ressentimento. Pelo contrário. Diz para quem quiser ouvir que hoje se joga mais, que um time de antigamente não aguentaria um tempo contra um de hoje.
Mas geralmente o que se ouve de um jogador do passado é o inverso. Ele não se conforma que se aplauda tanto os outros. O torcedor de hoje vinga-se: antigamente não se jogava nada. Se tantos outros jogadores não acabassem tão mal, oferecendo o espetáculo da própria decadência, o torcedor não poderia dizer nada contra o passado que não viu. Ou, se viu, também o empolgara. Quem assistiu àquele Bangu x Fluminense e viu Domingos da Guia, o "Divino", cair sentado de levar tanto drible de Orlando, o "Pingo de Ouro", se não o viu em plena glória, podia se espantar quando lhe falassem em Domingos da Guia. Aquele? Não o da Copa Rio Branco, o do Bangu x Fluminense.
Ademir talvez quisesse continuar mais um pouco. Bem que poderia jogar ainda um campeonato. Ou alguns matches de um campeonato. Não era o mesmo: tinha, todavia, lampejos de Ademir. Ainda marcava gols, ainda decidia partidas. E poderia, em certos lances, sacudir ainda o Maracanã. Se o Vasco lhe desse um lugar no time, Ademir, quem sabe?, insistiria um pouco, adiaria a despedida dos campos. O que o enaltece é que ele não quis descer de clube, de cidade, de Ademir. Outro aceitaria uma proposta de outro clube. Continuaria recebendo as migalhas da glória que não se acaba de repente, nem em futebol.
Não jogando no Vasco, seu time, Ademir preferiu descalçar as chuteiras. E o Vasco, afastando-o do time, fez-lhe bem. Ademir poderá continuar a ser, na nossa memória, o Ademir que admiramos. Não esqueceremos mais certos lances de Ademir, só dele, aquela mesura que ele tinha de arrancar para o gol, sacudindo a cabeça. Quase sempre o artilheiro é um jogador que, só pensando no gol, deixa o brilho do futebol, das grandes jogadas, para os outros. Os outros conquistam a admiração do público, enchendo-lhe os olhos. O artilheiro é o conquistador, avassalante. De repente, sem ninguém esperar, decide a partida, estremece o estádio.
Ademir era um virtuoso. Podia ser, como foi, considerado um dos maiores atacantes do mundo e justamente porque, além de um artilheiro, isto é, de um homem-gol, foi quase um milagre como jogador, já que a velocidade que tinha, noutros nunca se juntou a técnica.
Domingos da Guia, por exemplo, detestava, e do fundo d'alma, os jogadores que corriam demais, Ninguém pode pensar, dizia ele, a duzentos quilômetros por hora. Nem pensar, nem ver as coisas direito, E Domingos, que pouco falava, disse isso depois de uma experiência automobilística. Meteu-se num carro, o volante enterrou o pé na tábua, e Domingos viu tudo confuso.
Ademir, é verdade, nunca teve a velocidade de Escurinho, que tanto elucida a observação de Domingos. Mas tinha a maior velocidade, um rush impressionante que o fazia chegar sempre primeiro na bola, para dominá-la ou desviá-la para o fundo das redes. Em plena velocidade Ademir via claro. Foi, portanto, uma exceção à regra de Domingos da Guia, Certas lembranças a gente quer guardar avaramente. Em futebol Ademir é uma delas. Felizmente, para ele e para nós, nada o modificará mais, Ele pode envelhecer tranqüilamente como Ademir. Será Ademir para sempre, porque é como o recordarão os que o viram jogar.
|