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Patrimônio

Getúlio Vargas, São Januário e o 1º de Maio

Por Maurício Drumond (com inserção de trecho da Agência Brasil)


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Fonte: FGV
Unindo o político e o sagrado, Getúlio Vargas teve nos estádios de futebol um dos principais palcos de sua ligação com os trabalhadores do Brasil. Nas festas do 1º de maio, discursando das tribunas de honra em frente ao microfone que levava sua voz a todo o Brasil e até ao exterior, em retransmissões do DIP Vargas utilizava-se do capital simbólico dos estádios para se aproximar das classes populares, que tinham no esporte um de seus principais elementos de lazer.

Em 1940 a festa do Primeiro de Maio é levada para o Estádio de São Januário. Cerca de quarenta mil pessoas (números do JB de 03 mai 1940, p. 9) se deslocam para o estádio de São Januário em bondes e ônibus gratuitos, de linhas especialmente montadas para o evento. O evento se iniciava às 15 horas com a entrada triunfal de Vargas em carro aberto, dando uma volta olímpica no campo, saudando o público presente. Depois, o discurso do ministro do Trabalho, Valdemar Falcão, foi seguido pela apresentação da Canção do Trabalhador, cantada por Carlos Galhardo, uma das maiores estrelas do rádio da época. Muitas outras cerimônias se seguiram até o discurso de Getúlio. Nele, o Presidente decreta finalmente o salário mínimo, assinando o Decreto-lei em pleno estádio, juntamente com Valdemar Falcão. Logo depois, Vargas deixa o estádio e o programa tem continuidade. Vargas anotaria o dia em seu diário de forma lacônica:

"À tarde, sigo com o ministro do Trabalho para as festas comemorativas do dia, no estádio do Vasco da Gama. Muita gente, muitos aplausos, discursos" (p. 310).

Em 1941 São Januário é mais uma vez o palco das principais celebrações do Primeiro de Maio. Às 15 horas Getúlio adentrava mais uma vez o gramado do estádio em carro aberto, sob grande ovação. Após a execução de O Guarani pela orquestra sinfônica do Sindicato dos Músicos do Rio de Janeiro, teve inicio um desfile de atletas operários, com seus respectivos uniformes de ofício. Seguem-se demonstrações atléticas de grupos militares e uma performance de bailarinos do Teatro Municipal. Logo depois, Valdemar Falcão faz seu último discurso no Dia do Trabalho como Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio. Getúlio Vargas profere então seu discurso, instituindo a Justiça do Trabalho, anunciada exatamente dois anos antes. Logo depois, Vargas se retira do estádio juntamente com seus ministros, dando mais uma volta junto ao campo em carro aberto, saudando a multidão.

O Primeiro de Maio de 1942 foi marcado pela ausência de Getúlio Vargas das festividades. O Presidente sofreu um acidente de automóvel quando se encaminhava para o Rio de Janeiro de Petrópolis, a fim de participar das comemorações no estádio. A festa prosseguiu sem Vargas, ainda que não tivesse o mesmo tom. As festas nesse ano tiveram grande participação militar, tendo em vista a mobilização das Forças Armadas brasileiras que se preparavam para entrar na Segunda Guerra Mundial.

Sábado, 1º de maio de 1943. O público que lotava o estádio do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, não ouviria apenas um discurso do presidente Getúlio Vargas em homenagem ao Dia do Trabalho, seguido de uma partida de futebol. Todos ali testemunhariam o nascimento de um conjunto de leis que atravessaria décadas, regulando as relações de trabalho e norteando a relação entre capital e trabalho no Brasil.

"O estádio estava lotado. Habitualmente Getúlio Vargas aproveitava o 1º de maio para anunciar alguma medida de proteção ao trabalhador. Houve uma partida de futebol com equipes importantes e depois Vargas falou à Nação. Vasculho minha memória sempre que me perguntam quais os times que jogaram, mas não consigo me lembrar", diz Arnaldo Süssekind, 85 anos, jurista que participou da comissão que elaborou a CLT - Consolidação das Leis do Trabalho.

Em 1945, de volta a São Januário, o tom dos discursos já demonstrava a proximidade do fim do Estado Novo, com o processo eleitoral já demarcado. Após desfiles de trabalhadores, meninos escoteiros, dos times de futebol dos sindicatos e de outras demonstrações, Getúlio chega ao estádio e faz seu discurso aos trabalhadores.

Não é de se estranhar assim a proximidade que a imagem do estádio de São Januário assumiu junto a de Getúlio, como um de seus mais significativos palcos políticos. Em oito celebrações do Primeiro de Maio realizadas durante o período do Estado Novo, quatro foram realizadas no estádio, sendo outra realizada no Pacaembu, estádio municipal de São Paulo construído sob o governo de Vargas.

Em seu retorno à presidência através de eleições realizadas em 1950, Getúlio retornou ao estádio que o marcou no primeiro Dia do Trabalho sob seu novo mandato, em 1951. A celebração da data adotada por Getúlio como simbólica de seu governo foi eivada de confrontos esportivos, como os jogos Itú F.C. (de Vila Isabel) 1 x 0 Del Castilho F.C., Cronistas de Rádio 2 x 0 Cronistas de Jornais e Artistas de Radio do Rio 1 x 1 Artistas de Radio de São Paulo. Seguiram-se desfiles de operários e um acalorado discurso de Vargas, que voltava aos braços dos "Trabalhadores do Brasil".

1952 veria a ultima festa ser realizada por Vargas no estádio do Vasco da Gama, no Dia do Trabalho. Ainda que o Maracanã já estivesse em pleno uso, a ligação simbólica de São Januário com Getúlio tornava-o o local mais propício à celebração do evento. A parte esportiva contou com jogos de futebol e com uma apresentação de basquete dos Harlem Globe-Trotters, seguidos de um show de musicas populares. A festa ainda contou com a entrega, por parte de Vargas, de medalhas de ouro e de diplomas de Mérito do Trabalho aos jogadores da seleção brasileira campeã do Panamericano do Chile.

Os dois anos seguintes seriam anos críticos para o governo de Vargas, que se suicidaria em agosto de 1954, deixando São Januário órfão de seus discursos.