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Patrimônio

Uma emoção de 60 anos

Por Milton Costa Carvalho


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Crédito da foto: Revista Placar

21 de abril, feriado de Tiradentes, é também um dia de festa para os vascaínos. Há sessenta anos, nesta mesma data, surgia São Januário. E, como ocorre há décadas, esta é uma época de encontros, lembranças e comemorações entre aqueles que escreveram a história do Vasco, como Ademir Marques de Menezes, o Queixada. Um dos maiores ídolos da história do clube. Ele nunca deixa de reverenciar o velho estádio.

Na semana passada, o pernambucano se antecipou e foi rever São Januário em companhia do gaúcho Francisco Aramburu, o ex-ponta-esquerda Chico, com quem acumulou glórias e emoções. Juntos, recordaram cenas perdidas no tempo. "Lembra-se, Chico, do que aconteceu aqui onde estou?", cutuca o companheiro.

Ademir está na tribuna de honra revivendo uma antiga imagem. Aplaudido pela multidão, ele recebe das mãos do presidente Getúlio Vargas a medalha pela conquista do Campeonato Pan-Americano de 1952, disputado no Chile. Havia motivo para tanta festa. Era o primeiro título que o Brasil conseguia longe de casa.

Em São Januário. Vargas. para muitos um vascaíno fanático, sentia-se à vontade. Lá ele desfilou em carro aberto pela pista ao redor do gramado e fez o pronunciamento que instituiu as leis trabalhistas no país. Foi tão aplaudido como o "Expresso da Vitória", como era conhecido o time de Ademir e Chico.

Aos 65 anos, Chico volta ao passado para relembrar uma jogada mortal: "Da esquerda eu cruzava na medida para Ademir. Comemoramos goleadas humilhantes, como 5 x 2 no Flamengo, 5 x 3 no Fluminense e 11 x O no Olaria, em 1947".

Ademir, dois anos mais moço, embarca na viagem do companheiro. "Fomos campeões cariocas invictos em 1945. E que ataque tínhamos!", vibra ao rememorar a linha formada por Djalma, Lelé, ele, Jair Rosa Pinto e Chico.

São Januário é uma história só de emoções que começa no dia em que foi concebido como uma resposta à discriminação que o Vasco sofria do Flamengo, Fluminense, Botafogo e América, Os grandes da época. Aristocráticos e racistas, não admitiam um time formado por negros e mulatos e que, ainda por cima, começava a atrair multidões.

Por isso, em 1923. quiseram impedir sua participação no campeonato principal, ainda que, no ano anterior, o Vasco tivesse conquistado o título da Segunda Divisão. É um clube que gratifica seus jogadores, acusaram. E era verdade. Os dirigentes vascaínos tinham até um código: um cachorro era igual a 5 000 réis; um coelho era 10 000: um peru ou um galo era 25 000; e uma vaca, 100 000 reis.

No primeiro jogo à noite, nasceu o gol olímpico Foi assim que nasceu o hábito de se chamar de bichos os prêmios pagos por vitória. No entanto, como essa prática também era adotada pelos clubes ricos, mudou-se a estratégia: só poderiam disputar a Primeira Divisão as associações que dispusessem de sede e estádio próprios. Prevaleceu, porém, o bom senso. E o Vasco pôde seguir seu caminho de vitórias.

Mesmo assim, o episódio humilhara os dirigentes vascaínos. E, desde 1923, eles assumiram o desafio de construir não apenas um estádio, mas o maior de todos. Arrecadaram 2000 réis e compraram um terreno. Depois, organizaram a Campanha dos Dez Mil Contos de Réis, a quantia necessária para erguer o estádio.

FESTA DE INAUGURAÇÃO — Assim, na tarde ensolarada do dia 21 de abril de 1927, aconteceu a festa de inauguração de São Januário. Com o presidente Washington Luís presente, o major Sarmento de Beires, comandante do avião português Argos, que realizara a travessia Lisboa—Rio de Janeiro, cortou a fita simbólica, sob o olhar do presidente do clube, Raul da Silva Campos, e do presidente da defunta CBD, Oscar Costa. Só que a festa não foi completa. O Vasco convidou o Santos de Siriri, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista, um ataque infernal, e caiu por 5 x 3. Desde então e até 1950, quando começou a era Maracanã, São Januário esteve diretamente ligado à história do futebol brasileiro.

Com um ano de vida, seria o palco do primeiro jogo disputado na América do Sul sob iluminação artificial. O Vasco venceu o Wanderers, do Uruguai, por 1 x O, com Santana marcando um gol direto numa cobrança de escanteio. Os uru-guaios eram bicampeões de futebol em Olimpíadas. Por isso há uma versão de que tal tipo de gol foi logo batizado como "olímpico" naquele dia.

Se Getúlio Vargas viveu dias de delírio em São Januário, anos antes Washington Luís sentiu o incômodo de uma ordem não cumprida. Aconteceu numa partida entre cariocas e paulistas. Discordando da marcação de um pênalti, os jogadores de São Paulo decidiram abandonar o Campo. Então, da tribuna de honra, veio a ordem presidencial: o jogo deveria prosseguir. A resposta, trazida pelo mesmo e compenetrado oficial de gabinete, era seca e zangada: "Diga ao presidente que ele manda lá em cima. Aqui embaixo mandamos nós". Palavras de Amílcar, o líder Seleção Paulista.

São Januário sempre foi um estádio de muitas histórias. Como a daquele amistoso de 1949 entre Flamengo e o famoso time inglês do Arsenal, de Londres. Naquele dia, o magrinho Jair Rosa Pinto preparou-. para bater uma falta na intermediária e o goleiro inglês Swindin debochou, mandando abrir a barreira. Resultado: ele nem viu a bola entrar, tamanha a violência do chute.

Os velhos torcedores também não esquecem a tal mandinga do sapo, que teria sido enterrado no gramado de São Januário pelo ponta-esquerda Arubinha, do Andaraí, um clube que não existe mais. O que se conta é que Arubinha, irritado com uma goleada por 12 x O, rogou uma praga para que o Vasco passasse doze anos sem ganhar títulos. Isso aconteceu em 1937 e, verdade ou não, o vascaíno ficou em jejum até 1945. Faltou pouco.

LELE, ISAIAS E JAIR — Ademir de Menezes recorda também que na saga de São Januário não pode ser omitida uma referência ao trio Lelé, Isaías e Jair, conhecidos como "Os Três Patetas". "Lelé deu até samba", lembra-se. "Foi um grande ídolo como eu." Maior que Ademir, só mesmo Roberto Dinamite. Ele mesmo reconhece e cita a invejável marca — já ultrapassada — dos quinhentos gols de Roberto com a camisa cruzrnaltina.

Ao lado do estádio tradicional vive também em São Januário um clube moderno, com piscinas, ginásio coberto, bar, restaurante, butique e uma igreja — a de Nossa Senhora das Vitórias, onde se casou o ex-zagueiro Moisés, outro ídolo da torcida. O bonde São Januário, o 53, não corre mais nos trilhos da rua que lhe dava o nome e que passa atrás da arquibancada do estádio. Os tempos são outros. Mas, hoje, quem anda pela Rua General Almério de Moura, em São Cristóvão, não fica indiferente àquela imponente construção de estilo neoclássico. Erguido com o esforço da população, São Januário, o Gigante da Colina, como diziam os antigos locutores esportivos, parece destinado à eternidade. Nem que seja no coração de milhares de vascaínos que fazem de seu estádio o templo de seus ídolos.

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Data: 20/04/1987


  • Chico e Ademir - Crédito da foto: Revista Placar
  • Fachada de São Januário - Crédito da foto: Revista Placar
  • Detalhe da fachada de São Januário - Crédito da foto: Revista Placar
  • Capela de Nossa Senhora das Vitórias  - Crédito da foto: Revista Placar
  • Vargas e Ademir - Crédito da foto: Revista Placar
  • Campo de São Januário - Crédito da foto: Revista Placar